Escorpião

by Godasadog

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about

ESCORPIÃO nasce no último dia do seu ciclo astronômico. Um álbum aracnídeo com uma quelícera em São Paulo e outra em Londres, fruto de uma revisão sentimental com visitas a paisagens da infância.

O álbum, que começou a ser composto no retorno de Matschulat à Inglaterra, foi marcado por um processo criativo novo para nós, inteiramente feito à distância via skype, hangouts e emails. Ao mesmo tempo em que a relação pessoal perde um pouco do calor, por conta da distância, cada um encontra um novo terreno fértil de plantio e colheita na própria intimidade. Ao mesmo tempo, nunca sentimos de fato o peso da distância – até onde a gente sentiu, parecia apenas que estávamos em quartos diferentes da mesma casa, compondo, ouvindo, trocando. Uma casa-mundo com um cômodo azul chamado Oceano Atlântico entre os dois quartos.

credits

released November 21, 2016

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about

Godasadog São Paulo, Brazil

Godasadog é um duo formado por Victor Meira e Matschulat.

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Track Name: Festa
Ouvi a festa de trás do muro do mundo

Uma sombra se formou na minha cabeça
a ideia do prazer escondido
fora de alcance
proibido
sussurrado nas gargantas do meu ouvido

dessa falta de sol e daqueles sussurros
os blocos de gelo emergem da minha cabeça
que se festejasse poderia derramar

Ouvi a festa de trás do muro do mundo

Ergo a cabeça e começo a escalar
atrás da festa de trás do muro
atrás da festa do mundo

A festa é um lugar nunca tocado pelo sol
nunca tocado por sequer um raio de sol
Track Name: Espera
O dia inteiro sentado olhando pra esse quadrado
e o mundo ansioso em toda imensidão nunca fica parado
nada acontece como se ele soubesse, como se ele soubesse

Que eu preciso esperar
eu tenho que esperar

As coisas me atropelam
dedico pouco tempo pra nós dois
hoje eu quero dormir um pouco mais
vou correr pra dormir mais

Hoje eu não vou me atrasar

Eu preciso esperar
eu tenho que esperar
Track Name: Trauma
Xícaras estilhaçadas de chá
um corpo inchado de açúcar
sangue preto de homem coagulado
vago mais

Eis o cenário em que me vi
sem saber da tragédia que ocorrera por ali
panos sujos de louça
quatro pés em escorço no dorso de um bairro calmo
a quantos palmos se esconde a bagunça
onde eu despejo os cacos de trauma?

Daqui eu não saio.
Track Name: Infância
Subi na prateleira e puxei meu passado
um livro velho escrito todo errado
marcado em trechos longos, marca-páginas dobradas
com folhas secas e eu fotografado
em tantas séries e com tanta gente que eu nem sei quem são
memórias resistentes, lembranças que não se vão, então
eu vou vagar por ele, eu vou soprar o pó
tirar essa poeira daqui pra entender melhor

eu lembro de andar em cima do telhado
trepar na goiabeira que crescera logo ao lado
catar jabuticaba no pé do vizinho
jogar pedra no rio brincando de reizinho
correr pra todo lado sem temer se machucar
voltar todo ralado, calado pra ninguém notar
eu cavo o meu passado pra me encontrar nesse buraco
e entender melhor

no pasto eu aprendi que o quero-quero tira lasca
se lasca quem não leva guarda-chuva nessa caça
a árvore de ingá no meio da pastagem
só herói chega até ela, só quem tem coragem
e é por isso que eu andava com o boneco do Shun
preferia Cavaleiros a Castelo Rá-tim-bum, jogava bola
até gastar a sola no concreto
descalço mesmo, sem pensar demais no que é correto

Mas velho, toda a criançada era santa de verdade
a gente ia pra igreja, ninguém fazia maldade
mas isso só até a metade do colegial
quando chegou a idade em que isso não é mais normal
alguns continuaram no caminho da pureza
eu tenho amigo de infância que virou pastor da igreja, ou seja,
gostaram tanto dessa pureza que se sente quando é criança
que montaram acampamento ali mesmo, no mundo da infância

Se eu olhar pra trás do tempo do “era uma vez”
as coisas perdem nitidez quando eu tinha uns cinco ou seis
o bairro em que eu morava não tinha edifício nem asfalto
todo alarde era alarme falso
e nesse tempo eu nem sabia se era certo ou errado
quando eu fazia uma besteira ninguém era culpado
entendo essa galera que ficou no acampamento, mas lamento,
olhei pra frente e hoje eu tento ir com o vento

Ando com a barraca enrolada na mochila
e só acampo pra dormir ou pra tomar um chá de camomila
carrego o que presta e o que não presta eu jogo fora
pra não pesar eu jogo até dinheiro fora
porque a Terra corre solta, gira aflita enquanto muda
e a gente segue montado no casco da tartaruga
vou riscando as páginas desse meu livro velho
contando tudo o que faço, do berço ao cemitério
Track Name: Treta
Sentenciados e julgados
de hoje não passarão
os homens, suas malas e machados
desarmados aqui serão

Os ternos rasgados
e os carros queimados
redenção

Eu acredito na treta
na treta, na treta
sente o molotov queimar

Eu acredito na treta
na treta, na treta
desfigurar a imagem
será lançado à margem
não vai ter mais vantagem sobre nós

Não tem graça
ruína causando mais desgraça
o que eles querem é fazer barulho
encher o vazio de ideias de entulho

O que importa é perverter a palavra
porque nem sequer tentaram entender
O que importa é firmar a certeza
em nome de uma suposta “lei da natureza”

A perversão
tá em acusar o outro de tentar manipular
enquanto ele mesmo manipula
e com essa carapaça te faz vestir a carapuça

E vem me acusar de impor um pensamento
enquanto ele que se esforça a todo custo
para barrar qualquer pensamento

impedir o diálogo e denunciar o outro
pelo ato que ele próprio cometeu

É nessa repetição, nesse circo de horrores
que seguem fazendo todos os discursos vendedores
invocando qualquer clichê bíblico que os ocorra
lembrando de Adão e Eva, Sodoma e Gomorra

e, porra, abusam sem dó de deus e do mundo
se fazendo de santos em suas promessas imundas
chafurdam no absurdo das pérolas que arrecadam
arrebatam almas na pocilga em que nadam

você vê todo dia, sabe do que eu falo
na tevê, no facebook, em casa e no trabalho
que eles abusam do próprio deus do qual se valem
quanto é que eles valem?
abusam do próprio deus

Eu acredito na treta
na treta, na treta
sente o molotov queimar

Eu acredito na treta
na treta, na treta
desfigurar a imagem
será lançado à margem
não vai ter mais vantagem sobre nós
Track Name: Bairros
Por onde essas solas tão desgastadas me levam
ando por um chão folheado de outono e descaso
me satisfaço com a polidez da gente do bairro
e imprimo sem tinta o meu sapato por onde passo
a cidade é um gomo pequeno na bola do mundo
e nesse asfalto-gramado a gente vive junto
minha meia tá furada, minha camisa não tem número
minha chuteira não atola, não tem trava na sola

Na cidade do bom gosto
molhada de garoa quente
as ruas seriam compridas
não teriam nome de gente

Se bem que de fumaça e desaforo
faz tempo que o céu de São Paulo engole o choro
pra secar mais cimento no chão

Mas ciscando esse pavimento
o galo do bairro arrebenta
arranha a superfície dos sonhos em andamento, eu lamento

E quando eu vou pra longe de você
a angústia me devora
criei raízes e não quero ir embora
Track Name: Escuridão
tá tudo escuro e eu tenho medo
queria que fosse mais cedo
podia estar com você ou mais gente
tenho medo dos monstros e serpentes

com você daria pra correr junto
de bike a milhão a gente passa voando
até quando não desse mais pra ver lá no fundo

vou ficar aqui parado até quando?
eu acho que eu não mando mais no meu coração
parece que ele vai sair pela boca
eu respiro fundo e me jogo na escuridão

me lanço sabendo que não é seguro
me perco no escuro
me perco no escuro

prevejo a correia da bike soltando
me vi derrapando e caindo no asfalto
joelhos ralados e falta de ar
me resta esperar o destino chegar

um túnel de piche me separa do outro lado
a lua sinistra não clareia o bastante
meus olhos abertos parecem fechados
eu respiro fundo e me jogo na escuridão

me lanço sabendo que não é seguro
me perco no escuro
me perco no escuro

com você daria pra correr junto
e o que eu não daria pra que fosse mais cedo
me lanço sabendo que o caminho não é seguro
me perco no escuro